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Criação, a Justiça Original, o Pecado e a Promessa

(Extraído dos Caps. 11 a 13 do livro Iniciação Teológica – Mater Ecclesiae de Dom Estevão Bettencourt, OSB.)

Quem é o Homem?

Segundo as premissas semitas, o homem é carne viva (basar) animada por um alento vital (nefesh) como fruto de sopro (ruach) que vem de Deus. Assim sendo, os judeus não podiam conceber a noção de alma separada do corpo, nem tratavam de definir com precisão as propriedades dos diversos aspectos do ser humano. Já segundo as premissas gregas, aparece o conceito de alma ou psyché.

O homem é composto de duas substâncias distintas: corpo (soma) e alma (psyché), sendo esta dotada de imortalidade natural. O Novo Testamento reafirma esta distinção, quando Jesus fala:

“Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma.”

Mateus 10, 28

A Origem do Homem

A Teologia considera também a questão da origem do homem na medida em que interessa à Fé. O livro do Gênesis mostra que Deus criou o homem à sua Imagem e Semelhança para exaltar a dignidade do ser humano. E fala ainda que Deus o formou do barro e lhe soprou um hálito de vida apenas como expressão da dependência do homem de Deus, não por questões científicas.

Nada se pode depreender da Bíblia a respeito das teorias científicas modernas, especialmente da Teoria da Evolução, sobre a qual a Igreja se pronunciou na encíclica Humani Generis de Pio XII: “O magistério da Igreja não proíbe que a doutrina do evolucionismo seja objeto de pesquisas e debates… desde que ela busque em matéria anteriormente existente e vida a origem do corpo humano, pois as almas são criadas imediatamente por Deus, conforme a fé católica nos leva a sustentar”.

Corpo e Alma

Esta declaração distingue entre corpo e alma. Aquele, sendo matéria, pode provir da matéria viva preexistente ou do primata. Quanto à alma humana, por ser espiritual, não é oriunda da matéria (ninguém dá o que não tem), mas é diretamente criada por Deus e infundida no embrião desde a fecundação do óvulo.

Há ainda a questão do monogenismo (um só casal) e do poligenismo (muitos casais). Para a Igreja, não há problema em quem defenda uma ou outra teoria, desde que se entenda que o homem foi criado por Deus e que, mesmo que a matéria possa ter vindo por evolução de matéria preexistente, a alma humana é criada no ato da fecundação, e que o pecado do primeiro homem (Adão), ou dos primeiros homens, torna-se comum a todos os seus descendentes como herança por via de geração.

As Noções de Alma e Espírito

A palavra “alma” (do latim anima) significa o princípio vital ou animador de um corpo organizado, o que quer dizer que todo ser vivo tem alma e que há tantos tipos de alma quanto são os tipos de vida.

Há 3 tipos de vida: a vegetativa, com as funções de nutrição, crescimento, reprodução e irritabilidade (capacidade de reagir a lesões e se restaurar); a sensitiva, com as funções da vegetativa e mais a capacidade de conhecer seres concretos mediante os sentidos, e a intelectiva, com as funções vegetativas, sensitivas e mais a capacidade de conhecer noções universais, abstratas, distinguindo o essencial do acidental para chegar a definições tão precisas quanto possível.

O espírito é o ser real que não tem matéria nem corpo (quantidade, peso, tamanho…), mas é dotado de inteligência e vontade. Distinguem-se em 3 espíritos:

  1. Incriado não unido à matéria: Deus
  2. Criado não unido à matéria: Anjo
  3. Criado unido à matéria: Alma Humana, que é o princípio vital do organismo humano.

A Alma Humana

A alma humana é realmente espiritual levando em conta o seguinte princípio: o ser e o agir de determinada realidade devem ser correlativos entre si; cada qual age em função do que é. Para saber se a alma humana é espiritual ou material, devemos examinar as suas atividades. Se estas não ultrapassam as capacidades da matéria, diremos que é material; caso ultrapasse, diremos que é espiritual ou imaterial.

As Atividades da Alma Humana

1) Percepção universal: é certo que o ser humano é capaz de conceber noções abstratas, universais, percebendo o essencial, ou seja, a alma humana é capaz de ultrapassar o concreto, o material;

2) Linguagem humana: o homem tem a capacidade de formular conceitos universais e exprimi-los mediante sons concretos, que variam de idioma para idioma. A capacidade de perceber que diversos sons não significam sempre diversos conceitos é uma capacidade imaterial, pois distingue o som concreto e o conceito universal;

3) Consciência de si mesmo: o ser humano, além de conhecer os objetos que o cercam, possui o conhecimento de si mesmo (autoconsciência): não somente sente dor, mas sabe que sente dor, ou seja, seu princípio de conhecimento intelectivo é capaz de ultrapassar o seu objeto concreto, material, para atingir o próprio sujeito.

4) Cultura e progresso: o ser humano intervém no seu ambiente natural, criando cultura e civilização. Essas atividades se devem à ação intelectiva e planejadora da pessoa humana. Enquanto o animal age por instinto, o homem age por inteligência e vontade. Instinto é material, inteligência e vontade, espiritual.

A Imortalidade da Alma Humana

A imortalidade decorre da espiritualidade da alma. Vejamos:

1) A natureza mesmo da alma humana: a morte é dissolução do ser vivo. Ora, a alma não pode dissolver-se porque não é composta de partes, mas é simples, como todo espírito é simples;

2) O desejo natural: Todo homem deseja existir sem limites de duração e este desejo se deriva da própria natureza do homem. E, embora natural, não seria senão uma aspiração ineficaz caso a alma não fosse imortal;

3) A sanção da justiça: O ser humano aspira ardentemente à justiça. Contudo, a justiça na vida presente é precária. Deve haver uma vida em que a justiça seja perfeita e livre das imperfeições da matéria.

Assim se confirma a tese de que a alma humana é por si mesma imortal.

A Queda Original – O Paraíso Terrestre

O início do Gênesis, além de apresentar o casal humano e sua dignidade no mundo, aborda a difícil questão da origem do mal (o pecado nas origens do ser humano). O primeiro ponto a encarar é o do paraíso terrestre, que, segundo a Bíblia, era um jardim ameno, irrigado por quatro rios.

Apesar de muitos terem buscado uma localização geográfica para tal jardim, a narrativa bíblica não quer significar um lugar determinado, mas tão somente um estado de harmonia e felicidade a que o homem foi levado logo depois de criado. O rio, para os antigos, é símbolo de vida
e fecundidade, e quatro é o número que designa totalidade. Nada faltava ao homem no paraíso terrestre.

Justiça Original

Esse homem, recém-criado, gozava de dons especiais que a teologia denomina “justiça original”, que compreendia:

1) Filiação Divina: ou graça santificante, pois o homem participa da vida divina de forma sobrenatural, ultrapassando as exigências de todas as criaturas;

2) Dons Preternaturais: eram dons que ampliavam as perfeições da natureza, como a imortalidade (antes do pecado, o homem não morreria dolorosa e tragicamente – como a Virgem Santíssima morreu/dormiu), a
impassibilidade (ausência de sofrimentos), a integridade (ausência da concupiscência desregrada) e a ciência moral infusa (que tornava o homem apto a assumir as suas responsabilidades diante de Deus). Esses dons não implicam que os primeiros homens fossem formosos. Eram dons meramente interiores.

O Pecado Original Originante

O pecado original originante é o pecado dos primeiros pais, que, elevados à justiça original, foram por Deus solicitados a um SIM, que os confirmaria naquela comunhão com Deus. Eles receberam a ordem de não comer do
fruto da árvore da ciência do bem e do mal, o que significa que o Criador propôs aos primeiros homens um programa de vida condizente com a sua dignidade de filhos de Deus; não se guiariam apenas pelo bom senso e a prudência da natureza, mas, elevados a ordem superior, seriam orientados por norma de vida superior.

Diante dessa prova, o homem disse NÃO a Deus, movido pela soberba, que é a raiz de todos os pecados (inclusive dos anjos). O homem quis ser igual a Deus.

O pecado original originante acarretou também a desarmonia no mundo irracional que cerca o homem; este já não é o ponto de convergência das criaturas inferiores; ao contrário, estas muitas vezes prejudicam o homem e lhe negam a sua serventia; tendo-se rebelado contra Deus, o homem sente contra si a rebelião das criaturas inferiores.

O Pecado Original Originado

O pecado dos primeiros pais tem repercussão nos seus descendentes. Todavia, o pecado original originado não é culpa pessoal nem falta voluntária: consiste na ausência dos dons originais (graça santificante, dons preternaturais) que os primeiros pais deviam ter guardado e transmitido, mas não puderam transmitir porque pecaram.

A criatura que nasce hoje devia nascer com a graça santificante, mas isto não acontece; ela nasce destoando do exemplar que o Senhor lhe tinha assinalado. Essa issonância, que implica a concupiscência desordenada e a morte, é que se chama, por analogia, “pecado original” nos pequeninos.

Os povos primitivos, antigos e contemporâneos, têm a noção de que os males existentes no mundo não são originais nem devidos ao Criador, mas provêm de uma culpa dos primeiros homens ou de um pecado original; tão
generalizada como é, pode ser entendida como valioso argumento em favor da doutrina católica.

Exercitando

A Equipe de Formação preparou ainda um flash quiz, um quiz de cinco perguntas, com o objetivo de exercitar o conteúdo que foi ensinado aqui. E aí, você topa? Acesse o Flash Quiz: Criação do Homem e o Pecado Original.

Equipe Tenda do Senhor

Escrito por Equipe Tenda do Senhor

Grupo de Oração Tenda do Senhor

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